sábado, 4 de março de 2023

A minha vida

Quando somos crianças dizem-nos que podems ser tudo a que nos propomos ser. Fazer tudo o que quisermos e ter uma vida maravilhosa. Só que não. Ninguém nos diz que a partir do momento em que casamos passamos a ser a esposa do sr. tal. A partir do momento em que somos mães somos a mãe da criança tal. E deixamos de ter todo o tempo que gostariamos para passar com os amigos (a maioria desaparece, porque assim dita a vida) e se tivermos para a família já é uma sorte. As crianças crescem e têm as actividades, as festas de anos, e nós andamos de um lado para o outro a tentar conjugar tudo. Família e trablho. E muitas vezes perdemos a nossa essencia. O nosso carisma. A nossa alegria. E depois o casamento começa a entrar em rotina. Não podes ter relações sexuais a qualquer momento porque as crianças podem ouvir. E mesmo quando te atreves não podes fazer barulho porque... as crianças podem ouvir. E cais na rotina de fazer uma vez por semana, uma vez de duas em duas semanas, o carinho acaba, a paixão morre e o amo-te acaba. Pois deixem-me que vos diga uma coisa. Eu não quero que a Paixão morra. Porque raios ela tem de morrer? Porque razão o amo-te deixa de ser pronunciado? O carinho? O amor? E ele diz-me que sempre foi assim. Como é que é possível???? Eu estive internada e ele esteve lá todos os dias comigo. Foi fingimento? Ele casou comigo pela igreja porque eu sou católica e eu nunca lhe pedi isso (nós já eramos casado pelo civil) Foi fingimento? Agora existe uma frieza. Está sempre agarrado ao telefone. Chama-me gorda! Não me deixa comer. E onde é que eu estou no meio disto tudo???? Já tentei sair de casa mas os meus pais adoram-no e viraram-se contra mim. Concordam com tudo o que ele diz e faz. É Deus no céu e ele na terra. Porque ele cuida de mim. A verdade é que depois de ter tentado sair de casa as coisas melhoraram um pouco. Um pouco. Mas a doença piorou. E ele nem se apercebeu. Ataques de ansiedade a toda a hora. Particularmente quando vou dormir. Mas pelo menos deixei de dormir tanto. Acho eu. Vou-me perdendo a cada dia. Vou deixando de ser eu. Sinto-me sozinha. Graças a Deus pelo meu filho que ainda está naquela idade de dar miminhos à mamã. Queria mais filhos. Ele não quer. A palavra dele é lei. Não podemos discutir o assunto. No trabalho também não estou a conseguir resultados. Sinto-me uma inútil. Que depende do marido para tudo. Talvez por isso ele esteja tão frio. Por sentir que tem de sustentar a casa. Lembro-me de ser pequenina e de os meus pais discutirem constantemente devido a problemas no trabalho do meu pai. Um dia, estavamos na praia e a minha mãe perguntou "Se eu e o pai nos separassemos com quem querias ficar?" A minha minha mãe era uma mulher fria e algo arrogante. O meu pai era carinhoso. Com quem acham que eu queria ficar? E ela nunca se separou. Talvez me culpe um pouco por isso. Mas a verdade é que ela deixou de discutir com ele. Pelo menos ao ponto de o meu pai deixar de sair de casa e ir para o carro quando discutiam. Sabem, as crianças também sentem. E se os pais não estão bem eles percebem. Por muito que se tente ocultar. Tal como quando são felizes. Por isso é preferivel que estejam felizes sozinhos do que zangados acompanhados. Mesmo que existam crianças pelo meio. Elas adaptam-se. Principalmente se virem os pais felizes. E eu quero ser feliz.

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