sexta-feira, 19 de abril de 2024

a dor de perder algo que não se tem

O assunto gravidez, para mim, ainda não é um assunto resolvido. 
Adoro bebés. Adoro sentir o seu cheiro, o seu calor, o seu amor, a sua fragilidade. Adoro a sensação de pertença que começa na nossa barriga. Aquela sensação de que somos protetores mais do que cuidadores.
Mas não posso ser mãe.
Não posso voltar a engravidar.
Sabem o porquê. Já o disse.
Tomei uma decisão e não me arrependo dela. Escolhi-o a ele porque sem ele nada fazia sentido. Nem mesmo ser mãe.
Emagreci. 
Perdi 20kg o que não é brincadeira nenhuma. Os nervos, a medicação, a ausência.... Tudo influenciou. 
E com esses 20kg perdi também aquela barriga enorme que me acompanhava e que muita gente via e me dava prioridade nas filas de supermercado.
Estava bem. 
Estava feliz.

E então uma utente lá do trabalho começou a perguntar se eu estava grávida. 
Simplesmente porque estava a usar camisolas largas.
Pessoal, eu perdi 20kg!!!! A minha roupa está toda larga.
Mas ela pergunta. E de cada vez que eu oiço aquela pequenina palavra... Gravidez.... Eu sinto novamente dor. 
Dor por saber que nunca mais voltarei a ser mãe.
Dor por saber que nunca mais vou sentir uma criança na minha barriga.
Dor por saber que a vontade nunca estará ausente e que sempre estará presente por muito que eu tente ignorar.

terça-feira, 16 de abril de 2024

ir à pendura


Se há algo que adoro, mas adoro mesmo, é ir no lugar do pendura.
Ou seja, não ser eu a conduzir.
Porquê?
Simples, para poder dormir.
E acreditem que eu durmo mesmo. Ressono e tudo! 
Sou daquelas pessoas que encosta a cabeça e apaga. Às vezes ainda tento fazer companhia ao marido. Juro que é verdade. Mas assim que o carro começa a andar ... A música a tocar.... É mais forte do que eu.
Olhem, adormeço sempre, pronto. Nada a fazer.

Hoje passou por mim um carro na rotunda. Eu olho e.... O pendura estava a dormir. 
Sabem, numa posição de quem está profundamente adormecido. Super desconfortável. Incrivelmente desconstruído ....
E eu pensei "ó meu Deus!!!!" Aquele gajo sou eu cada vez que entro no carro. É assim que eu pareço?
Que horror. Jurei para mim mesma, ali naquele momento, que nunca mais dormia. 
Depois lembrei-me "que se lixe. Ninguém me conhece mesmo!"

terça-feira, 9 de abril de 2024

o bom de estacionar à frente de casa....

.... É que o marido abre a janela e diz
"Olha, tens o pneu em baixo."
E eu, na minha voz de terna inocência 
"Ah, então e agora? Achas que aguenta até sexta-feira?"
"Hum... O melhor é irmos ali acima à bomba tratar já disso."
"Ah, sim é melhor. Então calça-te lá que vamos num estantinho".
E sim. O homem meteu-se no carro e foi meter ar no pneu do meu carro.
Digam lá que não é amoroso... 

domingo, 7 de abril de 2024

Uma casinha para mim

 

O nosso sonho sempre foi ter a nossa própria casinha.

Quando vivíamos em Sintra perseguimos por diversas vezes esse sonho. Víamos casas, sonhávamos com obras... mas nunca se concretizou.

Depois viemos morar para aqui e a ideia de compra a casa dos avós dele foi-se tornando mais forte. Mas infelizmente o primo dele teve a mesma ideia e, como herdeiro directo, o marido perdeu as esperanças. 

No entanto o sonho do nosso cantinho continua e ele já decidiu que não quer sair da Vila por isso a casa tem de ser ali. 

O que é que acontece? Eu acredito muito em sinais e coisas assim. A nossa senhoria que sempre disse que nunca iria vender a casa onde estamos decidiu o quê? Vender a casa onde estamos. E para mim é um sinal. Um sinal que se calhar aquela é a nossa casa.

O problema é que a casa é bem velha. E tem problemas de tudo. E precisa de obras para tudo. Deste o telhado, às canalizações, à electricidade.... tudo, mesmo tudo. E já que se vai mexer, bora lá fazer também umas mudanças para ficar mais ao nosso gosto.

É que a casa tem imenso potencial. Tem vários anexos que vão fora para aumentar o quintal e fazer uma pequena garagem para a mota, e um grande anexo mesmo colado à casa que permite aumentá-la. E em vez de uma casa com três quartos e uma casa de banho, ficaria com três quartos grandes, um escritório e duas casas de banho. Ah, e uma despensa. 

Ali o céu é o limite pois existe muito potencial. O problema é mesmo a questão monetária. Porquê? Porque o valor das obras é quase o valor que ela nos está a pedir pela casa em si. 

Eu sei que as coisas não podem ser dadas. Mas bolas, numa casa onde chove lá dentro, onde ficamos sem luz quando chove, onde temos problemas de canalização.... Será que somos nós que estamos a ver mal as coisas?

sábado, 6 de abril de 2024

Falar de morte


 Falar sobre a morte é sempre um assunto muito pesado. 

Não sei quanto a vocês mas acho sempre que nunca tenho a coisa certa para dizer aos outros.

Tivemos uma formação sobre o assunto. Por acaso foi muito interessante e o formador conseguiu tornar este tema leve, levezinho para toda a gente. E ele diz que é importante irmos de encontro às necessidades do outro. E mostrar que ele é importante.

Temos uma senhora no lar que todo o santo dia, à hora de almoço, quando lhe estou a dar a refeição me pergunta:

"Eu vou morrer?"

Nunca percebi esta questão da parte dela. Não tem dores. Tem uma vida até razoável. Uma família que a ama.

Mas todos os dias a mesma pergunta.

"Eu vou morrer hoje?"

"Não querida. Eu não deixo!"

Qualquer dia, se calhar, arrependo-me da minha resposta. Mas por enquanto ela vai ficando contente e continua a comer. E não volta a perguntar mais nada nem a falar sobre a morte.

terça-feira, 2 de abril de 2024

dor

Odeio pessoas. 
Sempre me desiludem.
E odeio-me a mim própria por deixar-me afectar por tudo e todos.
Eu adoro o amor. O carinho. O sentimento de pertença.
Mas a mentira, a desilusão, a crueldade... 
E eu como humana sou igual. Sei isso. O único problema é que ao contrário dos outros eu não consigo lidar com isso. Não consigo lidar com os defeitos dos outros. Dos meus próprios defeitos. 
É como se a minha alma não estivesse preparada para isso, sofrendo com todas as suas forças. E o pensamento da morte assombra a minha vida a todo o instante.
Eu sei que tenho muito pelo qual estar grata. E que a morte nunca deveria sequer rondar os meus pensamentos. Mas a dor apodera-se de mim sem dó nem piedade, por tudo e por nada. Como uma força invisível que enegrece o meu coração e o deixa desesperado. 
É difícil explicar aquilo que sinto. É uma dor inexplicável. Um desespero angustiante. E tudo o que eu sinto é que apenas a morte me pode salvar. 
Por isso sim, penso na morte. Constantemente. Como uma fiel companheira que qualquer dia irá ser capaz de me levar. De me libertar. 

Sei que é a doença a falar. 
Mas quando esta dor, este desespero se apodera de mim, não consigo evitar imaginar como poderia terminar com tudo. 
Já o fiz uma vez. Mas a dor aí era excruciante. E é isso que eu penso de cada vez que a morte me ronda. Que eu já aguentei pior. Que já estive pior.
E durmo. Com a esperança que o novo dia me traga a vida que necessito. Me devolva o amor que me rodeia e que naquele momento eu não sou capaz de sentir. 
Que desmistifique a liberdade que a morte aparenta e me sossegue o coração tranquilizando a minha dor.
Porquê é apenas mais um dia.
Só mais um dia.

Então e o mau tempo II

Rescaldo das últimas depressões que aqui passaram, desde a Kristin, passando pelo Leonardo e terminando na Marta. Terminando é como quem diz...