Sim, eu trabalho ao fim de semana. Que remédio. E hoje, domingo, era dia de ver a Missa na televisão aqui no lar.
Ora acontece que, algumas senhoras já não estão tão bem como antigamente, como é óbvio, e ao assistir à Missa, uma senhora ficou muito indignada. Porquê? Porque não a deixaram comungar. Não se está mesmo a ver?
São situações como estas que me deixam com muito medo da velhice.
Ao trabalhar num lar vemos muita coisa mas também aprendemos muita coisa. E as pessoas não têm noção do que é ser-se de muita idade e já não estarmos bem. Muitas vezes fazem coisas, com as melhores das intenções eu sei, e não percebem que o seu familiar já não é o mesmo de antigamente. Mudou. Envelheceu. Perdeu capacidades físicas e/ou intelectuais. E já não gosta ou já não é capaz das mesmas coisas de antes.
Ainda no outro dia, um filho ligava para a mãe. A mãe tremia por todos os lados. Suplicava para desligar o telefone e ir descansar. Mas o filho não entendia que realmente era que ela precisava. E continuava a falar e a falar... Quando tudo o que a senhora mais queria era livrar-se do telefone e ir-se deitar.
É difícil.
Muito difícil.
É difícil trabalharmos com idosos. Mas mais difícil é ser-se idoso. E a maioria das pessoas não compreende isso. Não se coloca no lugar deles e não percebe que muitas vezes eles só precisam estar num lugar que lhes permita fazer o que eles mais gostam, seja fazer atividades, seja descansar. E poderem ser quem são. E ter liberdade para isso. Porque muitas vezes é isso que mais lhes falta: ter liberdade para fazerem o que querem.
Tenho muito medo da velhice. Tenho muito medo de envelhecer.
Um dia conseguimos fazer tudo e no outro não conseguimos fazer nada. Um dia temos liberdade e no outro não. Um dia somos nós e no outro nem sequer sabemos quem somos. Quem é o outro. Ou então não nos conseguimos mexer como dantes. Estamos presos a uma cadeira de rodas ou a uma cama e estamos dependente de terceiros para tudo.
Eu sei que há coisas bonitas na velhice. Tenho muitos idosos que ainda têm plenas faculdades. Mas não consigo deixar de pensar nos outros. Nos que já não têm. E às vezes tão novos ainda....
Comecei este post a pensar que ia falar de coisas engraçadas que acontecem no trabalho mas depressa se transformou numa questão de medo. Espero, um dia, poder vir a apreciar as coisas boas que a velhice pode trazer. Cuidar dos netos e bisnetos. Passear. Namorar. Ser livre e independente até ao mais tarde possível.
Ser independente. Sim, acho que é isso mesmo. Poder ser independente e viver com o meu fofuxo até termos 100 anos. Ou até morrer.
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