domingo, 18 de fevereiro de 2024

Fingimento


"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração."

Fernando Pessoa


Às vezes é assim que me sinto. 
A fingir que está tudo bem. Que está tudo normal. Que sou uma pessoa como todas as outras.
Mas não sou. 
Lembro-me de ser criança e me esconder na casa de banho para chorar. Lembro-me de todos os anos comer as doze passas do ano novo e em cada uma delas pedir para ser feliz. Lembro-me de sorrir enquanto o meu coração vai definhando e partindo.
Com a médica do meu filho, na sua última consulta, aprendi que queria ser mais porque a gravidez foi uma das fases mais felizes da minha vida. E que o meu corpo exige estar "cheio" novamente. Que é normal querer passar por isso novamente e que cada vez que os primeiros sintomas da menstruação aparecerem o mais natural é eu ir-me completamente abaixo. 
A menstruação veio hoje. Os primeiros sintomas apareceram há uma semana. Confirma-se. 
Raios partam, odeio aquela mulher mas ela realmente sabe tudo de tudo. Quase me fez chorar no consultório à frente do miúdo.
É verdade, vou-me muito abaixo. E esforço-me o dobro das outras pessoas para estar bem. Faz-me falta a medicação. Faz-me falta tudo.
Não há nada que não me deite abaixo. Não há um único dia em que eu não sinta um enorme desespero por continuar viva.
Agarra-me às pequenas coisas. Às pessoas que me rodeiam. Ao meu filho. A ele.
E sorrio. E finjo que estou bem.
Mesmo quando só me apetece chorar 

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